Mitos, Monstros, Donzelas

Mitos, Monstros, Donzelas: A Busca Arquetípica de Jasão pelo Velocino de Ouro

Autor: Maria S. Kardaun

O mito e a verdade

O artigo explora o mito de Jasão e o Velocino de Ouro, destacando sua complexidade e sua origem coletiva e antiga.

A autora ressalta que, ao contrário de outras narrativas míticas gregas mais uniformizadas, como a Odisseia, a história de Jasão chega até nós por meio de fontes diversas e muitas vezes fragmentadas, o que dificulta uma versão padronizada do mito.

No entanto, graças a compilações tardias, o núcleo da narrativa foi preservado.

A análise recorre à psicologia junguiana para interpretar o significado simbólico do mito, argumentando que, mais do que veículos de verdades empíricas, os mitos servem ao domínio do sentido, trazendo reflexões essenciais para a existência humana.

Assim, o mito de Jasão é entendido como uma narrativa arquetípica, com raízes profundas no inconsciente coletivo, e sua função compensatória reside em conectar o indivíduo a um sentido maior e a valores fundamentais, para além das preocupações imediatas da vida cotidiana.

Jasão e a expedição à Cólquida

O texto reconstrói a narrativa da busca pelo Velocino de Ouro, começando pelo contexto de Jasão como herdeiro legítimo do trono de Iolco, salvo na infância de uma tentativa de assassinato por um usurpador.

Já adulto, Jasão retorna à cidade para reivindicar seu direito, sendo então incumbido pelo usurpador, por força de um oráculo, de trazer o Velocino de Ouro de uma terra distante e perigosa, a Cólquida.

A viagem de Jasão é marcada por episódios que envolvem figuras femininas ameaçadoras ou ambíguas, como as mulheres de Lemnos, as Amazonas e as Sereias, bem como desafios sobrenaturais, como touros cuspidores de fogo e um dragão que nunca dorme. No entanto, Jasão só consegue completar a missão graças à ajuda mágica de Medeia, princesa de Cólquida, que se apaixona por ele.

Com os conselhos, poções e artimanhas de Medeia, Jasão supera todos os obstáculos e retorna com ela para a Grécia. A narrativa, porém, não se encerra em um final feliz. Depois de uma série de eventos trágicos, Jasão trai Medeia, que, em vingança, comete assassinatos cruéis, incluindo o dos próprios filhos.

O destino de Jasão também é infeliz, culminando em sua morte solitária e inglória.

Imagens do feminino e individuação

A autora destaca que a narrativa de Jasão está permeada por imagens femininas problemáticas, que vão de deusas e monstros a feiticeiras perigosas. Do ponto de vista junguiano, o mito pode ser lido como uma jornada de individuação masculina.

O herói, inicialmente dotado de qualidades positivas e de uma relação privilegiada com valores maternos, falha em integrar o aspecto feminino (Anima) de forma consciente e madura. Jasão depende da ação dos outros—em especial de figuras femininas como Hera e Medeia—mas não consegue estabelecer com elas uma relação adulta e transformadora.

Assim, o mito expõe não apenas a dificuldade do herói em alcançar a maturidade psíquica, mas também evidencia um problema estrutural das culturas patriarcais gregas, em que a perspectiva feminina permanece excluída do espaço público e social, perpetuando desequilíbrios e frustrações.

O fracasso de Jasão em integrar o feminino serve como metáfora para os desafios históricos das relações de gênero.

Resumo

O artigo de Maria S. Kardaun oferece uma análise junguiana do mito de Jasão, mostrando como sua busca pelo Velocino de Ouro pode ser lida como uma jornada arquetípica de individuação, repleta de simbolismo sobre liderança legítima, valores coletivos e integração do feminino.

A autora argumenta que o fracasso final de Jasão, longe de ser mero infortúnio individual, reflete limitações culturais profundas e persistentes no modo como sociedades patriarcais lidam com a alteridade e o papel do feminino.

O mito permanece relevante ao suscitar questões sobre gênero, poder e consciência, e evidencia a necessidade contínua de busca por maior equilíbrio e integração psíquica e social.

Palavras-chave: Jasão e os Argonautas; Medeia; Velocino de Ouro; Mitologia Grega; Carl Gustav Jung; Psicologia Analítica.

Mais sobre Maria S. Kardaun

Professora e pesquisadora da Maastricht University, Maria S. Kardaun é especialista em mitologia clássica e psicologia junguiana, com diversos trabalhos publicados sobre literatura, simbolismo e análise arquetípica.

Referências e Obra Completa

O artigo conta com vasta bibliografia, incluindo autores clássicos e modernos como Carl Gustav Jung, Eurípides, Píndaro, Apolônio de Rodes, Kerényi, Tolkien, além de referências a estudos sobre simbolismo, psicologia e história das ideias.

KARDAUN, M. S. Myths, Monsters, Maidens: Jason’s Archetypal Quest for the Golden Fleece. PsyArt, v. 29.2, 2025, p. 1-24.

Link da Obra: https://psyart.org/wp-content/uploads/2025/02/Kardaun-Article-on-Jason.pdf

Acesso em: 25/06/2024

Está Gostando do Conteúdo? Compartilhe:

Lino Bertrand

Autor & Mais

Artigos
  • All Posts
  • Administração Hospitalar
  • Alquimia
  • Alteridade
  • Alucinógenos
  • Ansiedade
  • Arquétipo
  • Arquitetura
  • Arte
  • Arteterapia
  • Astrologia
  • Autoconhecimento
  • Borderline
  • Ciência
  • Consciência
  • Contos de Fadas
  • Criança
  • Cultura
  • Depressão
  • Edições
  • Educação
  • Emocional
  • Enfermagem
  • Epistemologia
  • Eros
  • Espiritualidade
  • Evolução
  • Explore os Artigos
  • Família
  • Fenomenologia
  • Filhos
  • Filmes
  • Filosofia contemporânea
  • Fobia
  • Geometria
  • Gnose
  • Grandes Mentes
  • Hipnose
  • História
  • I-Ching
  • IA
  • Identidade
  • Imaginação
  • Inconsciente Coletivo
  • Intuição
  • Liderança
  • Linguagem
  • Literatura
  • Livros
  • Matemática
  • Metanoia
  • Místico
  • Mitologia
  • Morte
  • Música
  • Musicoterapia
  • Neurose
  • Numinoso
  • O Livro Vermelho
  • Personalidade
  • Plantas Sagradas
  • Processo de Individuação
  • Psicanálise
  • Psicodélicos
  • Psicodinâmica
  • Psicologia Ambiental
  • Psicologia do Trabalho
  • Psicologia Junguiana
  • Psicopatologia
  • Psicose
  • Psicossomática
  • Psicoterapia
  • Recursos Humanos
  • Relacionamento
  • Religião
  • Respiração
  • Revistas
  • RH
  • Sagrado
  • Saúde
  • Self
  • Sem categoria
  • Séries
  • si-mesmo
  • Símbolo
  • Sincronicidade
  • Sombra
  • Sonhos
  • Tao
  • Tarot
  • TCC
  • Tecnologia
  • Telepatia
  • Teoria crítica
  • Teoria queer e estudos de gênero
  • Terapia
  • Teses
  • Tipos e Funções
    •   Back
    • 2023
    • 2024
    • 2025
    • 2026

Copyright © 2026 Jung Press | Com Jung na Prática